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domingo, 26 de junho de 2011

Conto: Parada no Casarão

                                                            * Geraldo Eloy Viana
Nas minhas passagens anteriores eu já tinha ouvido alguma coisa em relação ao que estava acontecendo próximo dali do “Barracão”, estabelecimento à beira da estrada onde se vendiam bebidas, cereais, utensílios e diversas outras coisas.  Havia no local umas seis ou sete pessoas, três homens de barbas grandes jogando baralho. E assim que pedi um refrigerante, o atendente, em voz baixa,  aconselhou-me:
- É bom o senhor não continuar a sua viagem, pois a coisa aí na frente não está nada boa!
- É mesmo? – fitei o seu rosto. – E o que é que está acontecendo?
- É outra briga dos fazendeiros inimigos. Já faz três dias que está chovendo balas por todo canto e se já não tem gente morta é por puro milagre de Deus!

terça-feira, 7 de junho de 2011

Pré-lançamento do livro Crônicas Conquistenes

Ocorrerá no dia 08 de junho de 2011, às 17 horas, no foyer do Teatro Glauber Rocha da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, campus de Vitória da Conquista, o pré lançamento do livro Crônicas Conquistenses / Na trincheira eletrônica, do escritor Alberto Marlon. O evento acontecerá dentro da programação do Latina - Festival de Arte y Cultura Latino-americana, que acontecerá entre os dias 07, 08, 09 e 10 de junho.
Em sua  primeira obra, o escritor baiano relata histórias vivenciadas em Vitória da Conquista, bem como sua experiência como estágiário na campanha eleitoral das eleições de 2008.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Carne e chocolate


  Que me perdoem os vegetarianos, mas não dispenso os prazeres da carne. Em alguns pontos sou à moda antiga: o homem, em sua trajetória evolutiva, sempre conviveu em paz com outros animais, desde quando estes permanecessem em seus rebanhos. Segundo o evolucionismo, e remontando aos primórdios, um dos fatores que explicam a nossa grande massa encefálica é a ingestão de grande quantidade de proteína animal. Dentro desta ótica, e obedecendo à minha própria evolução, delicio-me particularmente com carnes vermelhas, sejam cozidas, fritas ou assadas. Devo também dizer que aprecio aves e frutos do mar, pena estarmos um pouco longe do litoral... A churrascaria, para mim, é uma espécie de templo onde algum deus pagão nos farta de picanhas, alcatras, maminhas e outras partes do boi, ou porco, a depender da disposição dos que servem a mesa. Nos dias que não posso frequentar meus templos favoritos – a vida de aspirante a escritor e jornalista desempregado não contempla certos gastos – recorro aos já conhecidos “espetinhos de gato” ou aos chamados “churrascos grego”, opções baratas para um carnívoro inveterado e de poucos recursos.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Entrevista com Seu Jorge numa ótica impetuosa

A experiência aventurosa de uma jornalista sem credencial, com sua narrativa lúdica em forma de conto, sobre o Show do Seu Jorge e a inspirada entrevista com ele, no sábado (23) em Ilhéus.
                                                                    Por Anna de Oliveira
O dia 23 de abril, sábado de aleluia, não saíra de meus pensamentos, e também dia de São Jorge em Ilhéus. Embora eu já estivesse conformada com o travesseiro de minha cama, em nível oficial aqui no planeta Terra eu não iria para o show de Seu Jorge. Mas alguém lá em cima mexeu seus pauzinhos para que o que se estava aparentemente consumado, se transformasse em uma das melhores coberturas jornalísticas que até então já experimentei. Eis aqui o novo jornalismo, com seu caráter narrativo literário e ao direito minucioso dos detalhes – o jornalista vive a realidade e narra com seu discurso livre e de dentro da alma, o acontecimento. Aviso aos navegantes que é para quem gosta de ler. É que nem um bolo gostoso, a melhor parte é o recheio.
- Tenho uma surpresa para você, disse minha mãe eufórica assim que cheguei em casa pouco mais que as 23 horas.
- Boa ou ruim? Preocupei-me.
- Boooa! Entre risadas ela me aliviava um possível susto, os nervos a flor da pele. Nossa prima ligou, disse que está com enxaqueca e tem duas entradas para o show do Seu Jorge. Perguntou se nós gostaríamos de ir, disse minha mãe. Caridosamente, claro, ela aceitou os ingressos. Eu mal poderia imaginar que esse seria o início de uma carreira que por tantos anos ensaiei os passos na graduação de jornalismo.
- Vamos logo então nos arrumar, está marcado para que horas?, indaguei.
- Aqui no ingresso diz que é às 22 horas, mas você sabe, nunca começa no horário.
- Vá logo se arrumar e venha no meu quarto que vou fazer sua maquiagem, instrui minha mãe como se fosse minha filha, e eu como uma mãe que cuida de sua cria.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Conto: O Juramento

                                                                                Geraldo Eloy Vianna*
Ele partiu chorando, na mente e no coração um propósito inabalável: Vencer, voltar e tirar o pai da mendicância. 
                                                                ***
        Tudo nele era decadência e desalinho, o físico mirrado, roupas sujas e esfarrapadas, cabelos e barba grandes e emaranhados. Mas no seu rosto havia traços nobres e, enquanto ele me estendia a sua mão trêmula e súplice, seus lábios se abriram num sorriso cristalino, tão alvos eram os seus dentes. E ao passar-lhe uma mísera moeda, notei que os seus dedos indicador e médio eram pegados um no outro. Agradeceu-me e foi se afastando no seu penoso e claudicante andar, apoiado num já bem gasto bastão.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Participação do leitor: Deleite

                                                                                                                Branquinha*
Logo depois daquela viagem longa (toda a noite contemplada e testemunha dos meus anseios mais travessos) veio o cansaço e o sono...descanso merecido(precisava) e antes da hora esperada vem ao meu encontro quem tava a esperar por dias, numa ansiedade desmedida. Olhares aflitos e apressados, o desejo toma conta, sinto-me fraca, persuadida, tomada, como um balde que transborda devaneios. Meus sentidos já não são os mesmos. Lá fora é como se não existisse. Tudo é arcano.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Terá Wando uma versão High Tech?

                                                                                                                                 Eveline Mota*
Como disse um amigo meu: “Não basta ser jornalista, tem de participar”... Isso depois de contá-lo sobre as picadas de abelha recebidas na cabeça, pescoço e braço durante uma reportagem. Com o antebraço igual ao do Popeye trabalhei no sábado esperando um turninho de folga para fazer um som com os amigos, o maridão e o novo morador do 302. Meu persa Chicão. Eis que um dia antes, o ídolo atual Luan Santana passa mal enquanto se apresenta no Festival de Verão em Salvador. Um dia depois da apresentação interrompida, Luan deveria fazer um show aqui em Vitória da Conquista... Aí... Fu... Milhares de telefonemas, orientações, mudanças nos horários... É fato: Se o Gurizinho faz o show bem de saúde aqui é notícia. Se não, também é.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Diários de cinema


Participava da Mostra de Cinema Conquista 2010, quando recebi o convite.
 - Beto, vou realizar um evento de cinema itinerante na Chapada Diamantina, pensei em você para fazer assessoria de comunicação. Perguntou-me Denise Santos, documentarista que, após concluir o curso de Comunicação Social da Uesb, enveredou pelo mundo do cinema. A moça já tinha alcançado reconhecimento pelos trabalhos que havia realizado e, naquele momento, lançava-se em mais uma empreitada.
 - Quando será? Estou fazendo um curso de especialização e não posso me ausentar por muito tempo da cidade. Respondi, já com a decisão que, a despeito de todos os entraves das datas, iria.
 - Semana que vem. Ficaremos 12 dias, em cidades, vilarejos e trilhas. Iremos exibir o documentário “Pati, o que vale esse povo?”. Foi um trabalho que realizei, juntamente com Sophia Midian e que mostra um pouco da vida dos habitantes do Vale do Pati, na Chapada Diamantina. Então, exibiremos o documentário, gravaremos tudo, entrevistaremos pessoas e, com esse material em mãos, faremos um novo filme. Preciso de você para fazer a divulgação e alimentar o blog do evento. A equipe será grande!  
 - Gostei da ideia. Vou confirmar minhas datas. De antemão, estou dentro!
  Três dias depois pisava o calçamento irregular das ruas de Mucugê e pegava um transporte rumo à localidade de Guiné...

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Diários de cinema - parte II

As antigas ruas de pedra estavam cheias de gente. Por todos os lados um vai e vem festivo. Barracas, mulheres com sacolas, animais de carga e veículos. Nos bares a beberança já havia começado e, à medida que a manhã avançava, o fluxo de copos e garrafas se intensificava. A feira da cidade de Mucugê é um espetáculo de cores e aromas. Era neste cenário que iríamos realizar a penúltima exibição dos filmes. O local designado era a sala de auditório do CRAS (Centro de Referência de Assistência Social), vizinho ao prédio da Prefeitura. As janelas foram fechadas – para criar um ambiente escuro, mais propício à exibição cinematográfica – e, após iniciada a sessão, foi vetada a entrada de mais pessoas, tal era o número de espectadores. 
Findado o compromisso em Mucugê, arrumamos as bagagens e, mais uma vez na carroceria do Toyota, tomamos o rumo do Vale do Capão.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A divisão da ótica


  Uma fina neblina acoitava friamente meu rosto enquanto caminhava. A umidade que ameaçava transpassar o couro de meus sapatos me fez reconsiderar o trajeto pela grama e, em dois saltos compridos, alcancei o caminho pavimentado que une o Módulo da Secretaria ao prédio que abriga o Teatro Glauber Rocha - creio que apenas uma seleta minoria sabe o nome oficial dos módulos da Uesb.
    Àquela hora da manhã, de uma fria segunda feira, só uns poucos experimentavam uma caminhada pelo campus.  Meia dúzia, pelo que vi. Alcancei o pátio da cantina de Dona Dalva, sentei em uma das cadeiras de plástico e abri um texto da disciplina Semiótica.  Entre as primeiras linhas de uma tradução de Roland Barthes, que conceituava língua e fala, e o labor das funcionárias nos preparativos para abrir a cantina, os ônibus despejaram as primeiras levas de estudantes.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Caiu uma filosofia no meu chope!



Noite de sexta feira, uma das mais abafadas do verão conquistense. Ao fundo um blues chora mágoas através de uma caixa acústica. O garçom traz mais uma rodada de chope quando Bárbara deposita mais uma bituca de cigarro em um cinzeiro de vidro que, pela aparência, clama por ser esvaziado. Enquanto Fábio rabisca qualquer coisa em um guardanapo Alberto boceja e, demonstrando certo enfado, suspira profundamente.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Webcam

Um leve cheiro de sexo pairava na atmosfera do pequeno quarto desarrumado. Na cabeceira direita da  cama, ainda desforrada, um cinzeiro sepultava algumas bitucas de cigarro. Joana (para uma maior proteção de minha fonte  os nomes aqui mencionados são fictícios) me recebeu com um sorriso amarelo, quase uma desculpa: “oi Beto. Entra, não repara a bagunça, ou melhor, repare mesmo. É que meu namorado acabou de sair...”

domingo, 21 de novembro de 2010

Pitonisa

Visitas são coisas curiosas, ainda mais quando vêm sem aviso. Como em um passe de mágica lá estava ela, sentada, uma taça de vinho em uma mão e a outra a fazer cachos nos cabelos negros. Não me lembro de ter recebido notificação da companhia de energia elétrica, mas a iluminação era através de velas, grandes e coloridas, algumas já gastas. Por instantes não dissemos nada, apenas nos estudamos, como dois pugilistas antes da explosão de golpes e contatos.  Não entendo muito dessas coisas de metafísica, mas havia qualquer coisa além de nossos corpos naquele encontro.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Caruara

  
 Do galho em que estava, podia ver os pequenos seios da moça que ria, sentada em um tronco, logo abaixo. Como uma massa mole e aderente, o riso me retinha. O sol do meio dia, a sombra fresca das folhas, a leve brisa que refrescava: poderíamos respirar sentimentos. Uma melodia soou ao fundo, a princípio baixa e envolvente. Depois foi aumentando, mais, cada vez mais. Como um trem que rasga a plácida paisagem, o som cresceu tremendamente, abafando o riso, apagando a moça, a árvore, a verdura e todo invólucro onde reina o impossível...

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Mocotó e buchada


O encontro foi fortuito. Nada me lembraria se não fosse o fato de uma amiga ter me ligado na manhã seguinte, logo cedo:
 - Você tava bebendo?
  Com a mente ainda povoada dos sonhos da recente madrugada balbuciei:
- Como assim?
- Diga, tava ou não? Do outro lado da linha a conhecida interrogava, com ares de preocupação. Tinha uma mescla de autoridade e carinho em sua voz, produto dos subsídios que ainda lhe dava de se intrometer em minha vida.
- Sim, bebi. Por quê? 
- Tá vendo? Parece que em Conquista nada pode ser feito sem que algum conhecido não dê notícias.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Ergues da justiça a clava forte, e verás que o filho teu sucumbe à luta

- Então o senhor gosta de bater em criança, não é?
- O que é isso, doutor, o senhor não pode me tratar assim.
- Ah, não! E como devo tratar um elemento que espanca crianças como você, hein!?
Enquanto a lei interpelava o acusado, expondo o delituoso e suas implicações legais ao seu praticante, Ari observava tudo do lado de fora da sala. A grande janela de vidro dava visão aos de fora, que podiam ainda ouvir entrementes algumas palavras pronunciadas com maior fervor.
- Deixe-me explicar o que aconteceu antes do senhor me julgar.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Crônica nossa de todo dia


Vista por muitos jornalistas como algo menor, sem muita importância jornalística, a crônica firma-se como um gênero que é considerado por muitos como o último resquício da literatura no jornalismo, uma espécie de mal necessário.

Em meio a uma enxurrada de fatos sérios, pesados e muitas vezes trágicos do dia-a-dia de um jornal, a crônica, ao  apresentar uma realidade recriada, vem como algo leve e sem grandes compromissos. Um alívio para o leitor sobrecarregado de eventos efêmeros da realidade jornalística. Segundo Wellington Pereira “a crônica promove uma leitura estética das banalidades, a partir do reconhecimento de uma razão sensível que constrói e reconstrói o útil e o fútil”. Talvez em função desta característica a crônica é erroneamente considerada por alguns como um texto menor.

sábado, 7 de agosto de 2010

O furto


Estavam em atitude suspeita. No interior do ônibus os passageiros observavam o grupo que estava no ponto da Vila Serrana, terminal da Avenida Lauro de Freitas. Eram três, pés descalços, shorts, camisetas de malha, cabelos por cortar e a pele morena, umedecida pela persistente chuva que caía naquele fim de tarde. Um comia um espetinho de carne, outro pedia dinheiro aos passageiros e o terceiro estava absorto, percorrendo com o olhar a estante de livros do projeto Ponto Literário.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Acerto de Contas

Semanas atrás um caso ocupou lugar de destaque na crônica policial e alimentou o falatório dos que conheciam, pessoalmente ou por fama, o protagonista do ocorrido; em meados de janeiro, em um bairro periférico de Vitória da Conquista, um Kaddet verde-metálico estacionou em frente a um bar. Àquela hora da tarde o murmurinho das cerca de 15 pessoas, já meio embriagadas, se misturava com o som de uma exibição de DVD vindo do fundo do estabelecimento. Do automóvel desceram um homem negro, aparentando uns 60 anos e duas jovens que, em contraste com o seu acompanhante, pareciam bem mais jovens e bonitas do que realmente eram. O trio ocupou uma mesa e pediu bebidas. Passado algum tempo, as mulheres se retiraram em direção ao banheiro. Pouco depois uma moto pára em frente ao bar, um dos ocupantes desce e, sem tirar o capacete, saca uma pistola semi-automática 9 milímetros e dispara seguidas vezes no homem negro. O primeiro projétil atinge sua jugular, privando-o da vida instantaneamente. O restante dos disparos deu certeza aos matadores que Sinvaldo, um conhecido traficante que atuava no mercado varejista de drogas, e que, depois de uma longa temporada, acabara de sair da prisão, não mais vivia. Sinvaldo, comparado a outros tantos, foi uma exceção, morreu relativamente velho.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

A vez do eleitor escalar o time


Sexta feira, 2 de julho. Seria mais um dia qualquer se não fosse o jogo da seleção de futebol brasileira. Em campo, Brasil e Holanda, pelas quartas de final. Contrariando a maioria, eu estava em trânsito, esperando um coletivo pra ir assistir os canarinhos na casa de um colega. Esperava no ponto enquanto se aproximava a hora do jogo. Uma moça, que passava de bicicleta, chamou-me a atençao: ei, se você está esperando o ônibus pode desistir, eles não estão circulando na hora do jogo do Brasil. Com o aviso da moçoila, saí de minha ingenuidade: Por Garrincha! Até o transporte público pára em jogos da seleção pentacampeã. Tudo fechado, apenas os sons das irritantes vuvuzelas aqui e acolá.