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quarta-feira, 28 de julho de 2010

notas para um diário eletrônico



Há tempos reluto em postar textos e fotos na minha conta de Fotolog[1]. Sempre utilizei o serviço para comentar. Decidi quebrar a inércia e fazer uma espécie de pequena crônica cotidiana. Longe de ser um diário – não teria coragem pra tanto!- os textos lidos aqui serão pequenas janelas de meu olhar sobre a realidade.
  
Manhã fria e úmida. Junho em Vitória da Conquista tem como marca os dias frios, com ou sem garoa. Acordei cedo e, como quem conserva a esperança de evitar o inevitável, travei uma longa batalha até levantar.

Chuveiro morno, toalha, roupa seca e limpa, café quente... A fina chuva lá fora e o barro nas ruas convenceram-me a permanecer seco. Avaliando o quanto poderia ser prazeroso andar de ônibus em um dia de chuva decidi não ir motorizado.


7:50 da manhã, em passos rápidos dobrei a esquina e, a menos de 50 metros, vi minha condução arrancando, deixando um rastro de fumaça negra. A aula era 8:20. Telejornalismo tem sido a disciplina-chicote no curso de Comunicação da Uesb: se chegar 10 minutos atrasado, falta. 16 ausências no semestre, reprovação sumária. Foda-se roupa seca, foda-se conforto, foda-se chuva, vou de moto, dá tempo, pensei.

Chaves, documentos, capacete, botas...onde guardei a roupa plástica? Emprestei? Ou ficou na casa de alguém? Pôrra, não lembro. 7:55. A distância de minha casa até a Uesb é de aproximadamente 15 km. A uma velocidade de cruzeiro de 60 km/h gasto 15 minutos até lá, calculei.

Logo de início vi que manter a velocidade planejada não seria tarefa fácil. O trânsito, àquela hora, estava carregado e a garoa insistente dava a impressão de se navegar  dentro de uma nuvem.  

Para compensar os trechos mais lentos, assim que podia, dava uma esticada, roçando os 80 km/h. Em um desses momentos, precisando reduzir para fazer uma curva, fui passageiro por uma fração de segundo. Dei sorte. Mais um pouco e teria esquentado meu couro no asfalto úmido. Puta-que-pariu, respirei aliviado. Mais um foda-se. À merda a aula. Melhor: que se dane a lista de freqüência.

Reduzi a velocidade, ericei o torso, abri um dos braços e desejei cada gotícula de água que rompesse meu agasalho e viesse acariciar minha pele. Rodei sem pressa, admirando  a Serra do Periperi, envolta em nuvens brancas. Dobrei à direita e dei início ao último trecho da viagem: uma estrada de mão dupla, em zona semi-rural e sem acostamento. Cruzei com três ou quatro ônibus, que vinham em sentido contrário, levantando um spray de neblina e de tudo que escorria sobre o asfalto. Não me zanguei quando um tênue filete água gelada escorreu pelo banco da moto e, ultrapassando o jeans e a cueca, invadiu uma das minhas últimas ilhas de calor.

Cheguei. Não estranhei a minha moto ser a única no pátio onde, em dias normais, dezenas de motocas repousavam à sombra das árvores. Uma foto, merece uma foto, pensei.

Entrei no estúdio às 8:27. Pela cara da professora aquele não era um dos seus melhores dias. Nada vi sobre o bendito papel com as assinaturas dos colegas bem como também nada perguntei a respeito. Naquele momento exerci meu supremo direito do “foda-se” para as coisas. Apenas uma lista de freqüência, apenas uma matéria, apenas um ano a mais até a formatura...Foda-se. As regras, a lei, a moral e todas as demais coisas devem existir em função do homem, e não o homem existir para elas.

Aula. Conceitos, microfones, luzes, câmeras. Café, salgados, almoço, refrigerante... terminara a manhã e veio a tarde. 13:50. Enchi meu peito de poesia e fui a um doce compromisso.

Centro da cidade. Uma fria brisa soprou e balançou as bandeirolas de São João, espalhando a fumaça que saía dos tachos, nas barracas de comidas típicas. Um doce cheiro de quentão espalhou-se no ar e adoçou as vitrines, onde corações psicodélicos passeavam, sonhando com o melhor dos futuros.

-Vamos tomar quentão?
-Vamos!
-Ah, lembrei: trabalho daqui há pouco...
-Hum, então outro dia.
-Sábado.
-Combinado, sábado.

16:45, hora de ir. Ela retornaria ao trabalho às 17...

Após remexer repetidamente os bolsos constatei que havia perdido a chave da moto. Êta dia! Tudo bem, tenho uma chave reserva em casa. Nada mais que o incômodo de ir buscar.

- Dá pra você ir pro trabalho de ônibus?
- É melhor ir a pé, tá perto, é até mais rápido.
- Tá, vou buscar a chave. Te vejo mais tarde?
- Passa lá... Beijo.
- Beijo.

Fui em casa, peguei rapidamente a chave e retornei para o centro. Novamente motorizado, saí para resolver mais duas pendências. Retornando para casa, um chuvisco uniforme e constante, que me acompanhou por oito quarteirões, foi o suficiente para molhar até as meias.

19:40. Uma ducha morna desfez a sensação de “cozimento” em que me encontrava quando nas molhadas roupas. Seco, com o corpo nu, envolvido em uma coberta felpuda, acionei a discagem rápida do aparelho celular:

- Amor, sabe, não vou aí mais tarde, o tempo tá horrível, não quero me molhar mais...
- Ah, fica em casa,  nos veremos amanhã, vá descansar.
- Acho que vou escrever algo e postar na minha conta de Fotolog. Textos, sabe?
- Diário?
- Não, isso não... apenas uma ou duas curiosidades sobre meu dia-a-dia..
- Faça isso...
- Beijos
- Beijos...

Não me lembro bem mas, em algum momento, quando revisava os compromissos do dia seguinte, entrei no reino dos sonhos...

Vitória da Conquista, 04/06/2008



[1] Uma das muitas mídias socias populares entre usuários do Brasil e da América do Sul o Fotolog  obteve grande adesão de internautas, em sua maioria jovens e adolescentes,  que usam a ferramenta como um diário eletrônico. 

Um comentário:

  1. Um banho de chuva é sempre bom.
    Ótimo pra lavar a alma.

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