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sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Acerto de Contas

Semanas atrás um caso ocupou lugar de destaque na crônica policial e alimentou o falatório dos que conheciam, pessoalmente ou por fama, o protagonista do ocorrido; em meados de janeiro, em um bairro periférico de Vitória da Conquista, um Kaddet verde-metálico estacionou em frente a um bar. Àquela hora da tarde o murmurinho das cerca de 15 pessoas, já meio embriagadas, se misturava com o som de uma exibição de DVD vindo do fundo do estabelecimento. Do automóvel desceram um homem negro, aparentando uns 60 anos e duas jovens que, em contraste com o seu acompanhante, pareciam bem mais jovens e bonitas do que realmente eram. O trio ocupou uma mesa e pediu bebidas. Passado algum tempo, as mulheres se retiraram em direção ao banheiro. Pouco depois uma moto pára em frente ao bar, um dos ocupantes desce e, sem tirar o capacete, saca uma pistola semi-automática 9 milímetros e dispara seguidas vezes no homem negro. O primeiro projétil atinge sua jugular, privando-o da vida instantaneamente. O restante dos disparos deu certeza aos matadores que Sinvaldo, um conhecido traficante que atuava no mercado varejista de drogas, e que, depois de uma longa temporada, acabara de sair da prisão, não mais vivia. Sinvaldo, comparado a outros tantos, foi uma exceção, morreu relativamente velho.


A violência urbana é a origem do medo que povoa os corações e mentes da vida moderna. Várias teorias tentam explicar as causas de comportamentos violentos e atitudes nocivas à sociedade. O que se pode afirmar com segurança é que elas existem e, para nosso desespero, crescem proporcionalmente ao aumento da pobreza. Quem já não ouviu falar em algum acontecimento violento?  É normal ouvirmos o comentário de algum assalto ou assassinato.

Recentemente a sociedade brasileira ficou estarrecida diante das imagens exibidas no documentário Falcão: Os Meninos do Tráfico. É normal nós, por estarmos distantes dos locais onde as imagens foram produzidas, sentirmos certo alívio. Porém, com uma observação mais apurada, conseguimos ver que também temos nossos Falcões. Quem tem, ou já teve, algum contato com a realidade miserável dos bolsões de pobreza em Conquista viu algo familiar nas cenas do documentário realizado no Rio de Janeiro. Hoje, ao olharmos para os jovens desesperançados que habitam a parte esquecida da sociedade, reconhecemos os Sinvaldos, os Ticos, os Claudinhos, os Pedros e tantos outros que, produto do solo ácido em que germinaram, encerraram no mundo do crime suas vidas.

Sim, também temos os nossos Falcões. Eles ainda não têm os AK47, M16 e granadas, mas já trazem a baixa estima e o ódio à sociedade tão comum nos indivíduos excluídos e sem voz. Os nossos Falcões estão aí, nascendo, crescendo e morrendo nos recantos de nossa cidade.

Vitória da Conquista, maio de 2006.

3 comentários:

  1. muito bom beto ..

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  2. É este tipo de narração que é cada vez mais raro nos dias de hoje. Parabéns pela inciativa e pelo talento.

    Ana Fagundes

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  3. Gostei das colocações... a narrativa minuciosa nos remete à cena. Infelizmente é nesse cenário ácido germinativo e real de pobreza e violência, que habita meu diário de perícias.

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