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sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Mocotó e buchada


O encontro foi fortuito. Nada me lembraria se não fosse o fato de uma amiga ter me ligado na manhã seguinte, logo cedo:
 - Você tava bebendo?
  Com a mente ainda povoada dos sonhos da recente madrugada balbuciei:
- Como assim?
- Diga, tava ou não? Do outro lado da linha a conhecida interrogava, com ares de preocupação. Tinha uma mescla de autoridade e carinho em sua voz, produto dos subsídios que ainda lhe dava de se intrometer em minha vida.
- Sim, bebi. Por quê? 
- Tá vendo? Parece que em Conquista nada pode ser feito sem que algum conhecido não dê notícias.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Ergues da justiça a clava forte, e verás que o filho teu sucumbe à luta

- Então o senhor gosta de bater em criança, não é?
- O que é isso, doutor, o senhor não pode me tratar assim.
- Ah, não! E como devo tratar um elemento que espanca crianças como você, hein!?
Enquanto a lei interpelava o acusado, expondo o delituoso e suas implicações legais ao seu praticante, Ari observava tudo do lado de fora da sala. A grande janela de vidro dava visão aos de fora, que podiam ainda ouvir entrementes algumas palavras pronunciadas com maior fervor.
- Deixe-me explicar o que aconteceu antes do senhor me julgar.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Crônica nossa de todo dia


Vista por muitos jornalistas como algo menor, sem muita importância jornalística, a crônica firma-se como um gênero que é considerado por muitos como o último resquício da literatura no jornalismo, uma espécie de mal necessário.

Em meio a uma enxurrada de fatos sérios, pesados e muitas vezes trágicos do dia-a-dia de um jornal, a crônica, ao  apresentar uma realidade recriada, vem como algo leve e sem grandes compromissos. Um alívio para o leitor sobrecarregado de eventos efêmeros da realidade jornalística. Segundo Wellington Pereira “a crônica promove uma leitura estética das banalidades, a partir do reconhecimento de uma razão sensível que constrói e reconstrói o útil e o fútil”. Talvez em função desta característica a crônica é erroneamente considerada por alguns como um texto menor.

sábado, 7 de agosto de 2010

O furto


Estavam em atitude suspeita. No interior do ônibus os passageiros observavam o grupo que estava no ponto da Vila Serrana, terminal da Avenida Lauro de Freitas. Eram três, pés descalços, shorts, camisetas de malha, cabelos por cortar e a pele morena, umedecida pela persistente chuva que caía naquele fim de tarde. Um comia um espetinho de carne, outro pedia dinheiro aos passageiros e o terceiro estava absorto, percorrendo com o olhar a estante de livros do projeto Ponto Literário.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Acerto de Contas

Semanas atrás um caso ocupou lugar de destaque na crônica policial e alimentou o falatório dos que conheciam, pessoalmente ou por fama, o protagonista do ocorrido; em meados de janeiro, em um bairro periférico de Vitória da Conquista, um Kaddet verde-metálico estacionou em frente a um bar. Àquela hora da tarde o murmurinho das cerca de 15 pessoas, já meio embriagadas, se misturava com o som de uma exibição de DVD vindo do fundo do estabelecimento. Do automóvel desceram um homem negro, aparentando uns 60 anos e duas jovens que, em contraste com o seu acompanhante, pareciam bem mais jovens e bonitas do que realmente eram. O trio ocupou uma mesa e pediu bebidas. Passado algum tempo, as mulheres se retiraram em direção ao banheiro. Pouco depois uma moto pára em frente ao bar, um dos ocupantes desce e, sem tirar o capacete, saca uma pistola semi-automática 9 milímetros e dispara seguidas vezes no homem negro. O primeiro projétil atinge sua jugular, privando-o da vida instantaneamente. O restante dos disparos deu certeza aos matadores que Sinvaldo, um conhecido traficante que atuava no mercado varejista de drogas, e que, depois de uma longa temporada, acabara de sair da prisão, não mais vivia. Sinvaldo, comparado a outros tantos, foi uma exceção, morreu relativamente velho.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

A vez do eleitor escalar o time


Sexta feira, 2 de julho. Seria mais um dia qualquer se não fosse o jogo da seleção de futebol brasileira. Em campo, Brasil e Holanda, pelas quartas de final. Contrariando a maioria, eu estava em trânsito, esperando um coletivo pra ir assistir os canarinhos na casa de um colega. Esperava no ponto enquanto se aproximava a hora do jogo. Uma moça, que passava de bicicleta, chamou-me a atençao: ei, se você está esperando o ônibus pode desistir, eles não estão circulando na hora do jogo do Brasil. Com o aviso da moçoila, saí de minha ingenuidade: Por Garrincha! Até o transporte público pára em jogos da seleção pentacampeã. Tudo fechado, apenas os sons das irritantes vuvuzelas aqui e acolá.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

notas para um diário eletrônico



Há tempos reluto em postar textos e fotos na minha conta de Fotolog[1]. Sempre utilizei o serviço para comentar. Decidi quebrar a inércia e fazer uma espécie de pequena crônica cotidiana. Longe de ser um diário – não teria coragem pra tanto!- os textos lidos aqui serão pequenas janelas de meu olhar sobre a realidade.
  
Manhã fria e úmida. Junho em Vitória da Conquista tem como marca os dias frios, com ou sem garoa. Acordei cedo e, como quem conserva a esperança de evitar o inevitável, travei uma longa batalha até levantar.

Chuveiro morno, toalha, roupa seca e limpa, café quente... A fina chuva lá fora e o barro nas ruas convenceram-me a permanecer seco. Avaliando o quanto poderia ser prazeroso andar de ônibus em um dia de chuva decidi não ir motorizado.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Clássico é clássico

O salão estava lotado. Para onde quer que olhe o espectador desatencioso só enxerga pessoas vestidas de vermelho e preto.

Todas as cadeiras que preenchem os 20 metros quadrados da área estão ocupadas. Somente um espaço, pequeno, cerca de 2 metros por 2 estava vazio. Exatamente o espaço, a linha divisória entre o telão e os espectadores. O espaço onde brincam as crianças, o espaço da discórdia.
Havia todo o tipo de gente dentro do salão. Viúvo rico rodeado de mulher, solteiro largado, homem casado que deixou a mulher em casa, homem casado que trouxe a mulher que preferia estar em casa, enfim, pessoas que procuram diversão aos domingos e que esquecem que domingo não é mais final de semana, e sim, o primeiro dia da semana, justamente o dia do descanso, e que os homens utilizam para farrear, contrariando todas as aquiescências do Criador.

sábado, 10 de julho de 2010

A vida ensina - uma breve história do ensino público


                        
      O jovem professor se assustou diante da pergunta do aluno: professor, o que é átomo? Tal questionamento seria comum em um aluno que não estivesse cursando a última série do ensino médio.  Como se poderia falar sobre eletricidade sem o prévio conhecimento do comportamento das estruturas subatômicas?   Era a primeira aula de Física – a Física do 3º ano aborda os fenômenos elétricos -, início do ano letivo, e, diante do fato que alguns, ou a maioria dos alunos, não conheciam bem o conceito da estrutura atômica, o professor interrompeu o seu programa e, retornando dois anos no conteúdo, saltando da Física para a Química, dedicou suas exposições à atomística. Uma aula não foi suficiente, a segunda ainda não foi satisfatória, na terceira o professor desistiu e resolveu retornar à Física. Nas escolas públicas o curso noturno se caracteriza por seus alunos trabalharem durante o dia – o que os faz chegarem cansados e sonolentos -, terem retornado à escola depois de um tempo sem estudar, e muitos são oriundos dos programas de aceleração escolar-que os deixa desprovidos de conhecimentos básicos, indispensáveis no decorrer dos estudos. O passar dos dias veio com novas surpresas: surgiam problemas com Matemática – operações básicas -, leitura, escrita... Enfim, a maioria não tinha como acompanhar as aulas. 
   

quarta-feira, 28 de abril de 2010

breve etnografia botequinesca

Muitas coisas passam a impressão de que são demasiadamente valorizadas. Outras, com o passar dos anos, parecem ter se resignado diante do fato de não lhes ter sido dispensada a atenção que mereceriam. Já se teorizou demais, por exemplo, sobre questões instigantes como a grande importância que há em Plutão ser ou não um planeta. Ou se as toneladas extras exibidas por Ronaldo diante de milhões de telespectadores na última Copa do Mundo influenciaram ou não em sua capacidade de movimentação dentro da pequena área. Enquanto a mídia e alguns pseudo-formadores de opinião entretêm o público com discussões desse tipo, as pessoas se vêem excluídas, pois há outras pelejas verdadeiramente mais importantes.

terça-feira, 27 de abril de 2010

NA TRINCHEIRA ELETRÔNICA – PARTE 1

                                                  PRÓLOGO

- Alguém morreu na Rio Bahia.
Do outro lado da linha Aline Mattos, jornalista da TV Sudoeste, afiliada da Rede Globo, me passava mais detalhes sobre o ocorrido na BR 116, perímetro urbano de Vitória da Conquista.
Àquela hora da manhã, como de costume, tinha acabado de chegar à Central Filmes, locadora de DVDs onde Bárbara, então minha namorada, trabalhava.
- Que foi?  Perguntou a moça.
- Houve um atropelamento, parece que aconteceu agora. Vou lá fazer a matéria. Posso pegar a câmera em sua casa?
- Claro! Na parte de cima do guarda roupa. Leve baterias extras, pode ser que as que estão na máquina estejam descarregadas. Volta aqui ainda esta manhã?
- Sim, só vou lá, tiro as fotos, pego as informações necessárias e venho para escrever aqui mesmo. Beijo.
- Beijo.

NA TRINCHEIRA ELETRÔNICA – PARTE 10


                                                  EPÍLOGO

No dia seguinte as eleições transcorreram normalmente. Nenhum incidente foi registrado. No início da noite as pesquisas se confirmaram: Guilherme Menezes foi eleito prefeito de Vitória da Conquista. Tendo como segundo colocado o candidato Hérzem Gusmão, seguido por Esmeraldino Correa.
Boa parte dos que trabalharam na campanha conseguiram colocações no novo governo que tomou posse em janeiro de 2009. Outros profissionais não, como no caso deste narrador. Posteriormente, em conversas informais, os que não conseguiram um contrato na prefeitura chegaram à conclusão que nem todos os profissionais eram políticos, ou não tinham habilidade, além de suas capacidades técnicas, para ganharem as graças daqueles que definiam quem entrava ou não. Além disso, existia uma quantidade de pessoas que já haviam feito concurso anteriormente e, segundo informações, o novo prefeito iria priorizar os concursados.
  
Observação: este relato foi apresentado por Alberto Marlon de Oliveira, como trabalho de conclusão do curso de Jornalismo na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, em julho de 2009.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

NOITE DE IRA!



  De repente me lembrei de uma gravura religiosa que retratava os caminhos para o inferno e o paraíso: a estrada que conduzia ao paraíso era sóbria, estreita e sem maiores atrativos; em contraste, o lado que levava ao inferno e à perdição era larga, cheia de luminosos, música e luzes. Tal lembrança me veio à memória ao me deparar com a entrada para o festival de inverno 2007: uma enorme entrada, iluminada e com as imagens de algumas atrações do palco principal – Lulu Santos, Herbert Vianna Charlie Brown Júnior e Dani Carlos. Um som convidativo vinha além da entrada, as luzes ao fundo convidavam a uma realidade colorida e festiva. 
   

domingo, 25 de abril de 2010

Vida REAL

Sonhei que estava em um mundo moralista, ninguém via o verdadeiro valor, apenas um papel que falavam tanto que quem o tivesse era feliz. Aquele pesadelo não parava de piorar, vi pessoas na rua implorando por comida e outras nem olhando, fingindo que não tinha ninguém.
Tanta poluição, tanta covardia, má educação; tentei acordar mais não consegui, pois aquilo que estava acontecendo eu não sabia se era pesadelo ou vida real, melhor era o pesadelo da vida REAL.

C. S. Oliveira
fonte: www.csoliveirapoesias.blogspot.com

Observação: Catarina tem 10 anos de idade e, por acaso, é minha filha.

sábado, 24 de abril de 2010

A ação da solidariedade


Com uma leve puxada ajeitou o vestido pra encobrir o grande curativo branco que lhe colaram no seio esquerdo. Sentou-se devagar no sofá. Deu um leve sorriso e tornou a checar a vestimenta. Era uma cabocla de estatura média, corpo robusto e pés e mãos que indicavam a vida dura que levava. Do lado esquerdo do peito, sob o simples vestido de um rosa bem desbotado, dava pra ver as pontas de esparadrapo. Ao redor do curativo, nas axilas, braços e até perto do ombro, a pele estava mais escura, como uma queimadura.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Delírio


   Da minha infância e adolescência quase nada vale a pena ser narrado. Sempre fui um mero qualquer, sem grandes destaques e sem grandes quedas. As lembranças mais intensas e as que mais me interessam remontam de cerca de um ano atrás. Imprecisamente desde esse tempo vivo outra vida.
  Lembro-me que o Corsa Sedan deslizava na lama mole e escorregadia. Senti um breve frio no peito e, com uma redução de marcha e as devidas correções no volante, pus o carro na direção correta. Chovia. Torrencialmente. Reconheci o trecho e constatei que ainda tínhamos que rodar uns vinte quilômetros até a localidade de Cachoeira, distante vinte e oito quilômetros de Vitória da Conquista.
  

A VISITA

                                              

 Após alguns dias fora, retornei ao lar. Pedi perdão à minha cama pela ausência com um esparrachar sonolento e rapidamente me despedi do mundo dos sentidos. Talvez fosse o cansaço, ou a cama estivesse muito além das que me deitei nos últimos dias, mas tive a impressão que mal deitei e fui despertado pelos primeiros passos que vinham da rua: atletas, idosos, jovens, toda uma geração que aprecia as caminhadas matinais. Do alto de minha janela, na Avenida Olívia Flores, recebi as primeiras brisas do dia. Os caminhantes aumentavam em proporção que a manhã avançava. Conquista é uma cidade de caminhos, cresceu justamente por essa característica, entroncamentos, passagens e rodovias.  

CONTINUE A LEITURA NA VERSÃO IMPRESSA. 
 

domingo, 18 de abril de 2010

Um dia no Ceasa

Com um movimento preguiçoso o limpador abre um largo trilho no pára-brisa do Mercedes 1113. Dentro da boléia o motorista dá uma leve acelerada enquanto espera sua vez de passar no portão. Atrás, uma fina garoa encobre os caminhões que aguardam desde a noite anterior. Avenida Juraci Magalhães, 4 horas da manhã,  13 graus.



sábado, 17 de abril de 2010

Asas ao vento

Hoje, por volta do meio dia, um fato curioso chamou a atenção dos que passavam na avenida Olivia Flores, próximo ao Semai. Na parte da pista que está sendo duplicada algumas pessoas retiravam hastes e equipamentos de um reboque. Tecidos de náilon foram esticados, com varetas de alumínio, de forma que logo se notava a estrutura de uma asa delta. Em seguida uma espécie de trenó, com dois acentos e um motor com hélice, foi descido do reboque. Em pouco mais de 20 minutos o trike azul - uma espécie de ultraleve – estava pronto para decolar.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Sob o sol de sábado

Era mais um dia de trabalho para o jovem morador da rua 16, casa 20, bairro Coveima, periferia de Vitória da Conquista. Como de costume, ajudava sua mãe na tarefa de recolher sobras de madeira em um terreno que está sendo desmatado, às margens da BR 116. Não imaginava que, por volta das 10 da manhã de sábado, 09/08, ao atravessar a movimentada Rio Bahia, em frente ao posto Novo Paraíso, zona urbana de cidade seria despertado de seus pensamentos por uma estridente buzina.
  O jovem olhou para um dos lados e, impedido de mirar no sentido contrário por culpa do feixe de lenha que carregava às costas, foi colhido pelas dezenas de toneladas de um ônibus da empresa Salutaris, que ia no sentido Salvador São Paulo. Não se sabe quais foram seus últimos pensamentos.